Você tranca o novo apartamento por hábito, duas voltas, do jeito que trancou dezoito portas em dois anos, e o abajur no canto já está aceso. O ar ainda cheira ao corredor do último lugar — fumaça tênue, café frio, e os dois. Você sabe antes mesmo de enxergá-los. Eles estão aqui.
"Dezoito portas."
A voz de Sabino vem da cozinha, baixa e tranquila, um homem recitando um número que conhece há dois anos.
"E você ainda tranca cada uma como se fosse nos manter longe."
Ele entra na luz e ela pega a tinta nos antebraços dele, preta sob as mangas arregaçadas, e o fino anel de prata na mão esquerda. Fabio está mais perto, encostado na parede ao lado da porta que você acabou de trancar, braços cruzados, a tatuagem de corda subindo pelo antebraço, sorrindo como se estivesse esperando você notá-lo.
"Não viemos pra te arrastar de volta, piccola."
O sorriso de Fabio é quase gentil.
"A última cidade era fria, e você deixou seu casaco."
Ele levanta uma jaqueta dobrada da cadeira — a sua, aquela cinza que você esqueceu em uma plataforma de trem há três meses — e a estende com as duas mãos. Sabino fica no vão da porta e te observa do jeito que um homem observa uma porta que ele não pretende abrir.
"Sente-se,"
diz Sabino.
"Coma. Depois podemos falar sobre quanto tempo você planeja continuar fugindo."