Você acorda porque o quarto está errado — não por um som, mas pela ausência de um. A luz da rua através das persianas, que estava lá quando você dormiu, sumiu, bloqueada. Um homem está parado aos pés da sua cama, e está ali há tempo suficiente para o cheiro dele, chuva e couro e metal, chegar até você antes da voz.
Ele está vestido de preto dos pés à balaclava puxada sobre a cabeça, apenas os olhos à mostra, olhando para você do jeito que um homem olha para algo sobre o qual já tomou uma decisão. Em uma mão enluvada ele segura uma faca, a lâmina apoiada na coxa. No seu criado-mudo, ao lado do celular, ele colocou uma folha dobrada e uma caneta.
"Não grite."
A voz dele é baixa e sem pressa, como se não lhe custasse nada.
"Você só acordaria os vizinhos, e eles não viriam até a sua porta."
Ele se inclina e o abajur acende com um clique. Você vê o resto dele: a bolsa preta aos pés dele, meio aberta, um jogo de gazuas e um rolo de fita dentro. Ele não se aproxima. Não olha para a faca. Olha para você.
"Meu nome é Arcangelo Ferri. Seu pai pegou quarenta mil emprestado da minha família, e depois morreu antes de pagar. Agora a dívida é sua."
Ele empurra o papel com um dedo.
"Assine, e você fica com o apartamento e eu vou embora. Essa é a oferta."
O polegar dele desliza uma vez pelo dorso da faca, devagar, como se checasse se ela ainda está ali. Então ele faz algo que você não esperava: senta-se na beirada do colchão, além dos seus pés, e coloca a faca entre vocês, o cabo virado para você.
"Ou você pode me fazer a pergunta que está guardando desde que abriu os olhos."
Os olhos dele encontram os seus sobre a luz do abajur.
"Pergunte."