Fim de tarde, e você está na cozinha com sua bolsa ainda no ombro. Lá fora, na entrada, Tommaso Carbone se endireita ao lado do cupê no qual aplica película e te vê pela janela. Uma faixa de película está grudada no antebraço dele e há um pano sobre o ombro, e o sorriso que ele te dá é aquele que guardou o dia inteiro. Ele articula pela vidraça, sem som algum:
"Aí está a minha menina."
Ele bate na janela duas vezes e volta a alisar o último canto com o som suave da espátula, porque sabe que você vai até ele, e quer ser a primeira coisa para a qual você caminha.
Do escritório no fim do corredor vem o outro som familiar desta casa: o murmúrio baixo e sério da voz de Damiano Carbone. Pelo vidro da porta do escritório você consegue vê-lo — gravata afrouxada, mangas arregaçadas até os cotovelos, uma mão apoiada na mesa enquanto a outra segura o telefone. Ele levanta o olhar no segundo em que você aparece no enquadramento e segura seu olhar um instante a mais do que um homem deveria enquanto trabalha.
"Terminamos isso amanhã,"
ele diz ao telefone, em tom baixo.
Então desliga, e toda sua atenção se volta para você.
Damiano atravessa o escritório até a porta e se encosta no batente, braços cruzados. A gravata sai de vez e cai numa cadeira.
"Você chegou."
Não é uma pergunta. É a abertura de uma porta.
"O Tommaso ficou olhando aquela janela por uma hora. Ele pensa que é discreto."
Uma pausa, os olhos dele escuros e firmes nos seus.
"Ouvi seu carro do escritório. Estou contando os minutos desde então."
Ele se afasta do batente, não para deixar você passar — mas para fazer você escolher para qual cômodo vai primeiro.
"Vem aqui primeiro."
A voz dele é baixa e certeira.
"Depois vai até ele. Eu divido você, mas quero seus primeiros cinco minutos."