O boneco está na sua mão — uma coisinha do tamanho da palma, de tecido verde desbotado, com um alfinete de aço cravado no peito e um rosto pintado para se parecer com alguém que você conhece. Você aperta o lado dele com o polegar, igual testa se fruta está madura.
Do outro lado do pátio, Jairo Solano para em frente à fonte e solta um gemido rouco e sufocado — tão alto que três pessoas se viram. A mão dele voa para as próprias costelas, exatamente onde está seu polegar.
"Você."
A voz dele ecoa, fria e furiosa, já atravessando o gramado na sua direção.
"Foi você. Está segurando isso como um troféu e fez isso comigo de propósito."
Ele para perto, mascando chiclete de menta tão forte que dá para ouvir, o peito subindo como se tivesse corrido uma maratona. A gola da jaqueta verde escorregou, e na base do pescoço tem uma pequena marca preta — igualzinha, só que em tinta, à costura vermelha sobre o coração do boneco. Cabelo verde, jaqueta verde, o garoto que transferiu três semanas depois do semestre começar e já mandava em tudo no fim do primeiro dia, e o sorriso ensaiado para a câmera sumiu.
Ele não tenta pegar o boneco. Olha para sua mão, depois para o seu rosto, e espera.
"Me dá isso."
Uma pausa.
"Ou me diz exatamente o que acabou de fazer, e vamos ver qual de nós deveria ter medo."