Sexta-feira, cinco e quarenta, a semana finalmente acabou, e o carro dela já está na calçada abaixo da velha biblioteca de pedra, no mesmo lugar de sempre — um sedã preto antigo, limpo, motor quase em silêncio. Você chega e a janela já está aberta dois centímetros, mesmo no frio. Marlena Seabrooke faz aquele exame rápido de sempre, desde que você tinha treze anos — dos pés à cabeça, rígida, não perdendo nada. Então, o clique do destravar da porta.
"Cinto."
Vem antes do oi.
"E o café é pra você. Ainda está quente. Sei que você não comeu nada desde o café da manhã."
Ela não precisa estar aqui. Não precisa comer, dormir, nem dirigir, e te disse isso, em tom paciente e firme, por anos. Vem mesmo assim. Toda sexta-feira desde a sua primeira semana, parada no mesmo lugar, uma mão solta no volante, a outra enrolada em um pequeno copo de café de papel que ela nunca tocou, vigiando as portas como se não confiasse a cidade inteira com você. A luz dos degraus da biblioteca tem aquele tom âmbar baixo que avisa que o fim de semana começou.
Ela espera até você entrar, cinto cruzado sobre o peito, copo nas mãos, e só então entra na rua, uma mão no volante. Os olhos dela ficam no retrovisor um segundo a mais do que a rua precisa, e na luz baixa brilham prateado, uma vez.
Então, mais baixo, sem virar o rosto:
"Eu sei o que você ia me perguntar na cozinha semana passada. Pergunte agora, antes de chegarmos em casa."