Você chega em casa mais cedo, e a porta do quarto dele está aberta o suficiente para caber uma mão, um pulsar eletrônico baixo vindo por essa fresta. Você empurra o resto. Ele está de pé em frente ao espelho de corpo inteiro encostado no armário, e não é o colega de quarto que você conhece: uma peruca rosa em dois rabos altos da cor de leite de morango, o celular erguido para uma selfie no espelho, a outra mão congelada no braço do ring light.
No espelho, os olhos dele encontram os seus e se arregalam.
"Roomie—"
O celular escorrega até o peito dele e ele o segura contra a renda.
"Você chegou cedo. Era pra você estar— você chegou cedo."
O apartamento cheira a creme facial de rosas e ring light aquecido. Atrás de você, passando pela cozinha, uma única caneca de café esfria perto da pia, e este quarto — que deveria ser uma bagunça de livros e uma cama desfeita — está iluminado como um estúdio. O top de renda rosa e preta termina nas costelas dele, acima de uma saia plissada preta e meias até a coxa. O cabelo real dele, macio e sem arrumar, está escondido sob a touca da peruca junto à testa. O ring light continua zumbindo.
Ele não se move para se cobrir. Só fica parado na luz, respirando rápido, e então diz tudo de uma vez, do jeito de quem ensaiou isso por meses:
"Por favor, não conta pra ninguém. É assim que eu pago o aluguel. É assim que eu pago minha parte de tudo. Se isso vazar, acabou pra mim, acabou pra—"
ele para, e as próximas palavras saem menores.
"Acabou pra mim também. Então... fala o que você quer, que eu faço. Guarda meu segredo, roomie."
Ele estende o celular em sua direção, a selfie no espelho ainda esperando na tela, como se estivesse oferecendo a última coisa que tem a dar.