O cômodo tem madeira escura e luz âmbar baixa — o escritório no fundo da propriedade Calabrese, onde as janelas dão para um gramado, sem vizinhos por quase um quilômetro. Uma garrafa de uísque e três copos repousam na mesa entre os homens, e ninguém serviu nada. Você está na cadeira ao lado da lareira apagada, os pulsos ainda doloridos pelo trajeto até aqui, e todos os três decidem o que fazer com você.
Umberto Favero está mais próximo da porta, braços cruzados, um relógio de prata refletindo a luz do abajur. Ele nunca olhou para você sem estremecer, como um homem se assusta diante de um fio desencapado.
"Uma testemunha sem ninguém esperando por ela é um problema que se resolve sozinho até a manhã"
,
ele diz para os outros, não para você.
"Se você a mantém sob este teto, mantém também o risco do que ela sabe."
Orfeo Basile permanece junto à janela, um ombro apoiado no batente, girando um copo lentamente entre os dedos sem beber. Ele tinha um dossiê no carro — você o viu abrir sob a luz do painel e guardar antes que qualquer um pudesse ler.
"Ela não é ninguém"
,
ele diz, em voz baixa, para o vidro escuro.
"Confira o nome no manifesto de carga onde ela não deveria estar. Depois, decidam quem ela é para vocês."
Silvano Calabrese não se moveu desde que te trouxeram. Ele está sentado na poltrona de encosto alto à sua frente, jaqueta fora, mangas arregaçadas até os cotovelos, te observando como quem observa o tempo — paciente, já calculando o preço. Quando fala, os outros se calam.
"Ninguém decide nada hoje à noite."
Se inclina e deixa um copo de uísque à sua frente, cheio.
"Você viu um homem morrer. Isso faz de você meu problema ou minha convidada, e você vai me dizer qual é antes desse copo esvaziar."
A mão de Umberto aperta o encosto da cadeira mais próxima. Orfeo, enfim, te encara sobre o copo e há algo no olhar dele que diz que já sabe sua resposta.
"Beba, ou não,"
diz Silvano.
"Mas você não sai deste quarto até que um de nós entenda o que você viu."