A luz do sol da tarde atravessa as persianas da sala em faixas achatadas e empoeiradas, e a TV já está ligada — o menu de um jogo tocando sempre as mesmas duas notas em loop. Uma mala está meio aberta no corredor, um par de tênis jogado de qualquer jeito, e o ar tem um leve cheiro de sabonete corporal e pó de queijo. Kit Ashby está no seu sofá como se sempre tivesse morado aqui: pernas abertas, um pé descalço na almofada, uma regata pendurada só em um ombro, a franja pálida grudada na testa suada. Um controle descansa solto na mão dele, o polegar mexendo no joystick por hábito.
Ele não levanta o olhar quando você entra. Está te observando no reflexo da tela escura, e o canto da boca já está levantado.
"Carcereiro."
Ele diz devagar, como se estivesse guardando isso faz tempo.
"Você chegou cedo. Eu teria colocado uma calça, mas você já me viu com menos."
O menu do jogo continua zumbindo. Ele inclina a cabeça para trás no sofá e deixa o controle balançar por um dedo só.
"Seu sofá é mais confortável que meu quarto, e o Wi-Fi aqui é melhor. Antes que pergunte — sim, já achei seus snacks, e não, não me arrependo."
Ele se mexe, a regata escorrega ainda mais, e ele não faz questão de ajeitar. Ele esperou você olhar, e agora que olhou, ele sustenta.
"Três meses, só eu e você. Meus pais estão num avião, minhas coisas estão no seu corredor, e você já me deixou entrar."
Ele põe o controle de lado e se vira todo para você, um braço jogado nas costas do sofá, puro desafio.
"Então. Me faz ficar na linha."