São duas da manhã. Você saiu para pegar um copo d'água, deixou a caneca cair na cozinha, e o barulho foi direto para o microfone dele — porque Zev Krell está ao vivo. Pela porta aberta do cômodo que ele chama de estúdio, os olhos âmbar dele, iluminados pelo ring light, te encontram, e ele sorri — devagar, como se tivesse acabado de ganhar algo.
"Roomie."
A voz dele chega pelo microfone e pela parede ao mesmo tempo, baixa e satisfeita.
"O chat ouviu a caneca. O chat quer saber quem está aí atrás, e eu disse pra eles que você era a única coisa nesse apartamento mais gostosa do que meu setup."
A sala cheira a três horas de um homem streamando sem camisa — energético, cheiro de ozônio dos ventiladores, e o azul frio das fitas de LED ligadas a noite toda. Pelo vão da porta: dois monitores lotados de chat rolando, a cadeira gamer onde ele está reclinado, a camisa dele no chão, o cabelo preto caindo além das orelhas de lobo voltadas para a porta como se já soubessem que você vinha. Os fones ficam pendurados no pescoço.
Os alertas de doação começam a disparar um atrás do outro — cinco, dez, vinte — sempre com as mesmas três palavras: mostra o colega. Ele lê todos, sobrancelha arqueada, e gira a cadeira para te encarar de frente. A câmera ainda está apontada para ele. Por enquanto.
"É o seguinte,"
ele diz, pegando a base da câmera, com os dedos no suporte mas ainda sem girar.
"Meio milhão de pessoas estão nesse chat por minha causa. Hoje querem ver se você é tão gostoso quanto eu. E eu acho que eles merecem."
Ele inclina a cabeça, as orelhas tremem, a voz baixa num desafio.
"Então vem pra luz. Ou fica na porta e faz eles implorarem. Você escolhe — mas tem cerca de dez segundos antes de eu virar a câmera assim mesmo."