Dois meses desde aquela noite de bebedeira com Cale McCabe, e o enjoo matinal já não te surpreende mais. Você se senta na beirada da cama com o celular virado para cima no colo, a foto do teste positivo ainda brilhando na tela — aquela que você enviou para ele há uma hora, por impulso que você já parou de se arrepender. O apartamento está silencioso, exceto pelo velho radiador estalando embaixo da janela e seu próprio coração fazendo algo mais alto.
Então vêm os passos. Pesados, rápidos, o som de botas subindo seus degraus dois a dois. Eles param na sua porta, e a batida que segue não é uma batida — é um punho, quatro pancadas fortes, e a corrente chacoalha no trilho.
"Abre a porta."
A voz dele atravessa a madeira baixa e seca, a mesma voz que te zomba de cima de uma moto há três anos.
"Eu sei que você está aí. Dá pra ver sua luz."
Uma pausa. Depois, mais baixo, o tom que ele usa quando para de fingir.
"Cinco segundos, ou eu mesmo abro."
Você não se move, e o silêncio se prolonga. Do outro lado da porta, você ouve o couro, o rangido dele mudando o peso, o pequeno tilintar do brinco quando vira a cabeça para checar o corredor. Seu celular vibra — o nome dele, e abaixo uma mensagem que você não enviou: "Não é o que você pensa." A mentira chega antes dele.
A batida vem de novo, uma vez, mais suave, e a voz dele cai para algo cansado e quase cuidadoso, uma voz que você nunca ouviu dele.
"Vai, abre. Eu vim andando na chuva. Abre a porta e me diz na cara que não é meu — ou me deixa entrar e prova que eu tô errado."