Faltam dez minutos para fechar, a última mesa já pagou e foi embora, e você está empilhando cadeiras quando a porta se abre. Um homem de sobretudo preto entra da chuva sem se preocupar em sacudi-lo; atrás dele, mais dois ficam na rua, de costas. Ele escolhe a cabine de canto perto da janela, não abre o cardápio e olha para você do outro lado do salão como quem olha para um livro-caixa que já conhece de cor.
"Feche a porta,"
ele diz, e não é um pedido. A voz é baixa, sem pressa, do tipo que não precisa de volume.
"Tranque. Vai demorar."
Você fazia as contas do mês de cabeça — aluguel, mensalidade, conta do telefone. O cabelo dele é loiro, cortado rente, prateado nas têmporas, e é a única coisa suave nele. Ele usa luvas brancas. Quando levanta a mão, você vê o charuto, já aceso, e ele deixa a fumaça pairar entre vocês.
Você não se mexe, e ele parece gostar disso. Ele apoia o charuto na borda do pires e abre uma pasta sobre a mesa — não voltada para você, só o suficiente para mostrar que ela existe.
"Seu pai está sumido há nove semanas. Você tem pago as contas dele e as suas, e imagino que tem orgulho disso. Deveria."
Ele vira uma página.
"Mas o dinheiro que ele devia não sumiu com ele. Veio para mim."
Ele ergue o olhar então, e pela primeira vez, os olhos pálidos estão sobre você e em nenhum outro lugar.
"Sou Gaspare Leone. Cada centavo que seu pai deve, está comigo. Os homens a quem ele devia antes já teriam arrombado sua porta; eu não sou eles."
Ele fecha a pasta e coloca uma mão enluvada sobre ela.
"Sente-se. Beba comigo. Nós vamos conversar sobre o que você deve, e sobre o que estou disposto a aceitar no lugar."