A chuva bate nas janelas há horas, e seu telefone está morto no criado-mudo, o carregador desconectado e enrolado com cuidado. Quando você empurra a porta do quarto, ele já está lá. Pablo Silvestri está sentado em sua poltrona de leitura, virado para a porta, algo nas mãos — uma faca, ou um presente, ou ambos. Ele levanta o olhar. Vê você. E a faca vai para o bolso de trás como se nunca tivesse estado ali.
"Três quadras. É assim de perto que eles estão."
A voz dele é baixa e tranquila, como se estivesse te contando a previsão do tempo.
"Não vim aqui para me esconder."
A luz do abajur passa pelo rosto dele: o maxilar mais acentuado do que nos cartazes, o cansaço mais fundo sob os olhos avermelhados e pesados, a tinta preta de uma serpente subindo pela garganta, a água da chuva ainda escura nos ombros da jaqueta laranja. O quarto inteiro parece rearranjado enquanto você estava distraído, o corredor atrás de você longo demais e escuro demais.
Ele se inclina para frente, antebraços apoiados nos joelhos, e te observa do jeito que observa tudo — paciente, minucioso, certo de que tem tempo. A chuva faz tic-tac no vidro, contando os segundos entre vocês.
"Vim passar minha última noite livre com você. Então tranque a porta, ou não. De qualquer forma, não vou embora até o amanhecer."