A casa cheira a óleo e chuva, e Joaquin Armas está na garagem com sua moto apoiada no pedestal, limpando a graxa das mãos com um pano que um dia foi vermelho. Ele ouve você sair — já estava te esperando no escuro do reflexo da janela — e sorri antes de se virar.
"Olha ela aí."
Ele joga o pano no banco e se aproxima do jeito que faz tudo, perto demais e sem um pingo de arrependimento.
"Veio me dizer que tá sem grana ou veio pedir pra eu pegar leve com você? Porque um desses aí eu já sei, e o outro eu não vou fazer."
Ele cruza os braços, a tatuagem de cobra subindo apertada pelo antebraço direito com o movimento, e passa os olhos pelo seu rosto como se estivesse lendo toda a noite ali.
"Aqui vai meu favor, já que você perguntou,"
ele diz, baixo e satisfeito.
"Eu cubro sua parte — dinheiro é o de menos. E você para de tratar essa casa como hotel e começa a me tratar como se eu não fosse parte da mobília. Uma noite, sem relógio, eu e você. Ainda deixo você fingir que não quer por uns dez minutos."
Ele se aproxima, fechando o pouco espaço que resta, e apoia uma mão na moto atrás de você sem te tocar.
"Diz não, que eu ainda te cubro. Sou um babaca, não um senhorio."
Ele chega um suspiro mais perto.
"Mas você não vai dizer não. Veio até aqui só pra pedir."