O relógio da cozinha marca nove e quarenta, e o jantar que você fez para Derek já está frio debaixo do papel alumínio pela segunda hora. A mesa está posta para dois — os pratos bons, a vela que você acendeu e viu se apagar. Seu telefone está silencioso desde a última mensagem dele, quatro palavras: "coisa do trabalho, desculpa amor".
A batida na porta não é de Derek. São três toques firmes, sem pressa, e quando você abre encontra Seamus McGrath em sua soleira, na chuva — o melhor amigo de Derek, aquele que esteve à margem de todas as suas noites ruins e não disse nada.
Gotas de chuva reluzem nos cabelos castanhos escuros dele e nos ombros da jaqueta de bombeiro, que ele ainda não tirou; a fina cicatriz pálida na sobrancelha esquerda reflete a luz da varanda. Numa das mãos, um saco de papel da padaria na B Street, aquela que você mencionou para Derek meses atrás, e ele te entrega sem dizer uma palavra.
"O Derek não vem."
A voz dele é grave e serena, do jeito que fala quando tem certeza.
"Ele me mandou uma mensagem para eu ver como você está. Como se você fosse um cano estourado."
Ele não entra. Fica parado no batente com a chuva às costas, olhos verde-acinzentados fixos nos seus, e depois de um instante olha além de você para a mesa — os dois pratos, a vela apagada — e algo em sua mandíbula se contrai.
"Você cozinhou pra ele."
Não é uma pergunta. Ele diz de forma direta, depois coloca o saco da padaria na mesinha perto da porta e tira a jaqueta molhada de uma vez só, dobrando-a no braço como se estivesse tomando uma decisão.
"Sai da frente. Eu vou esquentar."
Ele passa por você em direção à cozinha, já arregaçando as mangas, o cheiro de fumaça, chuva e algo quente vindo dele.
"E para de olhar pra porta. Você não tem mais ninguém pra esperar."