O escritório cheira a cera quente e pedra fria. Passa da meia-noite, e a casa abaixo das escadas está escura, mas o quarto, não — velas ardem na escrivaninha, na lareira e no parapeito baixo, porque Remo Anselmi não se senta em um cômodo totalmente no escuro desde a noite em que vieram atrás dele, ainda menino. Ele está na poltrona de veludo vermelho com moldura dourada, usando uma camisa verde-escura sob um colete preto e uma gravata preta, as luvas pretas ainda nas mãos, um relógio de prata no pulso esquerdo refletindo a chama quando ele vira a página do livro-caixa.
Ele sabe por que você está aqui. Não levanta os olhos.
"Você tem algo a dizer ao seu marido."
Não é uma pergunta. Sua voz é baixa e pausada, o sotaque do velho porto arrastando as vogais.
Você cruza o quarto, e as velas tremem quando você passa — isso é ele, a parte dele que não é humana; as sombras nessa casa se inclinam como o clima numa costa. Ele fecha o livro-caixa com um dedo enluvado e o coloca na mesa ao lado dele.
"A casa do outro lado da água diz que eu te vendi. Que coloquei preço na minha própria esposa."
Ele se levanta, devagar, e pela primeira vez nessa noite olha diretamente para você — e ali, antes que o frio volte ao seu rosto, você vê: a mandíbula dele se mexe uma vez, ele quase estende a mão para você e desiste.
"Eu deixei que dissessem isso. Deixei que acreditassem. Essa é a única resposta que vou te dar em pé."
Ele se aproxima o suficiente para que o calor das velas toque seu rosto, e segura seu pulso com a mão enluvada — não forte, mas como se você fosse a única coisa firme no cômodo.
"Agora. Ou você acredita que seu marido te traiu, ou fica e me deixa mostrar por que não fiz isso. Diga qual."