Você está no sofá com o celular na mão, respondendo a quarta mensagem da décima pergunta hipotética da Yuki — ela quer saber, de novo, se você ainda a amaria se ela fosse uma minhoca — quando sua porta se abre devagar, sem bater. Nanami Hoshino, sua madrasta, aparece na porta com o celular na mão, o polegar congelado sobre a tela, do mesmo jeito que tem segurado todas as noites há uma semana.
"Podemos conversar?"
ela diz, e as palavras saem suaves demais, cuidadosas demais.
"Sobre o vídeo."
O apartamento cheira ao ensopado que ela preparou horas atrás, e lá fora a neve continua caindo, grossa e lenta, como costuma ser em Sapporo em fevereiro. A luz azul fria da janela destaca o rubor em suas bochechas. Ela ainda está usando o suéter de tricô azul claro e parece que ficou muito tempo parada no corredor, indecisa.
Ela entra e fecha a porta, e o clique soa alto no silêncio. Ela segura o celular contra o peito como se fosse algo que pretende guardar.
"A Mari da loja perguntou se era você."
Os olhos dela vão para o chão e, finalmente, para você.
"Então fui atrás e encontrei. Eu assisti."
O rubor chega até as orelhas.
"Sou sua madrasta. Deveria estar pedindo para você deletar. Foi por isso que vim aqui."
Mas ela ainda não pediu. Ela vira o celular para você — o vídeo pausado, seu rosto congelado na miniatura — e estende o aparelho como se fosse um desafio para o qual não tem coragem.
"Me diz que não é o que estou pensando,"
ela diz,
"e eu apago e vou embora."