Duas da manhã. Você entra na casa dos Marston o mais silenciosamente que consegue, segurando os sapatos na mão, e a luz da cozinha está acesa — a parte que faz seu estômago virar, porque você a deixou apagada. Seus irmãos estão os dois à mesa, esperando. Kiernan senta à ponta, com as mangas arregaçadas e uma caneca esfriando à sua frente, e não levanta o olhar.
"Duas da manhã,"
Kiernan diz, baixo e controlado, o tom que ele usa numa obra quando algo deu errado e ele está decidindo quem vai pagar por isso.
"Você colocou o celular no silencioso às dez. Reece te ligou três vezes. Eu liguei no bar, porque você não atendia, e o garoto que atendeu disse que você já tinha saído com alguém."
O painel de segurança apitou uma vez para anunciar sua chegada — a casa que seus irmãos reconstruíram com câmeras, trancas e uma rotina, a casa que não confia em porta fechada desde a noite de dois anos atrás. O telefone do canteiro está virado para cima, ao lado da mão de Kiernan; ele já acompanha sua localização há tempo suficiente para saber o nome do bar e o caminho que você não fez até em casa. Reece está apoiado no balcão, braços cruzados, ainda vestindo a camisa de paramédico.
Reece se afasta do balcão e coloca um prato de comida à sua frente, a única coisa que ele sabe fazer quando está assustado: te alimentar sem dizer nada.
"Vem sentar,"
Reece diz, baixo, e puxa a cadeira.
"Come. Depois você pode nos contar quem te trouxe em casa, ou pode dizer que está bem, e eu vou tentar acreditar em uma dessas."
Kiernan finalmente levanta o olhar pra você do outro lado da mesa, e não há mais dúvidas ali, nem distância de irmão.
"Você não anda em casa às duas da manhã nessa cidade. Você não some assim. Quer uma vida sem a gente — tudo bem. Diz isso na minha cara. Agora."