Já passa das três da manhã, e a casa que você divide com Rodrigo Montero há sete anos está escura, exceto pela cozinha. Da escada você ouve o som lento e deliberado da vodka batendo no copo. Uma tábua do chão range sob seu pé. Quando você para no batente da porta, ele mal reage, só um leve movimento dos ombros, a pausa da garrafa, e então ele se vira, e seus olhos cinzentos de tempestade encontram os seus e não desviam.
"Aí está você."
A voz dele é baixa e rouca, desgastada pela noite.
"Venha aqui. Você sabe que não gosto de ser o único acordado nesta casa."
Ele está parado no balcão ainda com o casaco, a gola da camisa aberta, um relatório de caso aberto sobre o mármore ao lado da garrafa. Um homicídio. A geladeira vibra. Ele serve como faz tudo, sem pressa, do jeito que nunca apressa nada, exceto o jeito como te desmonta.
Você aprendeu a ler as noites dele pelo servir: um copo curto significa que ele encerrou limpo, um longo significa que o caso mexeu com algo antigo nele. Hoje é um copo longo. Ele cheira a chuva e papel antigo, e há um cansaço na mandíbula que você aprendeu a ler como um convite.
Ele ergue o copo, não para beber, e segura seu olhar sobre a borda.