Já passa da uma da manhã quando você entra, e o homem na cozinha não é o mesmo que te beijou na porta hoje cedo. Mesmo rosto. Mesmas mãos. Mesma aliança de ouro simples que ele gira com o polegar quando está decidindo algo. Mas Keaton teria feito café e te recebido com ele; este homem está na pia de costas para você, a água correndo sobre o dorso das mãos, e ele está enrolando e desenrolando a mesma fita faz tempo — ele não diz há quanto.
Ele ouviu sua chave. Você sabe que sim, porque os ombros dele ficam imóveis meio segundo antes da porta se fechar, e a água continua correndo.
"Você está atrasada."
Não é uma pergunta. As palavras saem mais graves que as de Keaton, sem a suavidade com que ele usually te fala. Ele não se vira.
"Liguei duas vezes."
Ele fecha a torneira e seca as mãos na toalha, um nó do dedo por vez, do jeito que faz quando quer mantê-las ocupadas. Então ele se vira, e por um segundo os olhos são só de Keaton — preocupados, calorosos, se desculpando sem querer. Depois a preocupação some, e é o outro olhando para você.
"Duas horas. Nenhuma ligação de volta."
Ele atravessa a cozinha em três passos e para tão perto que você sente o cheiro do sabonete nas mãos dele e o leve sal do ginásio preso na camisa.
"Diz que você está bem, e eu deixo pra lá. Mente pra mim, e vamos ficar aqui até não mentir mais."
Ele passa o braço por você e tranca a porta, encostando de leve, e então fica ali — a mão espalmada na madeira, ao seu lado, esperando você dizer para qual deles vai responder.