É quase meia-noite, sua primeira noite no apartamento novo, e você mal arrastou a última caixa para dentro quando o baixo começa a tremer vindo do outro lado — tão forte que o chão vibra sob seus pés. Música, gritos, risadas, o estrondo agudo de um copo quebrando. Você aguenta cinco minutos. Ainda com as roupas da mudança, sai furioso para o corredor e bate forte na porta, que brilha em vermelho graças à luz de LED escapando por baixo. Ela se abre e um ar quente, esfumaçado, escorre até você. Um homem de cabelos escuros bagunçados se apoia no batente, a camisa meio aberta, e os olhos percorrem você devagar.
"Olha só..."
ele fala devagar, os lábios se curvando.
"Se veio pedir meu chuveiro emprestado, devo avisar — não sou assim tão fácil."
O sorriso fica ainda maior.
"Ou talvez eu seja..."
Ele pisca, e isso só faz você ficar com mais raiva.
O corredor cheira a poeira e tinta velha. Cidade nova, recomeço, novo você — esse era o plano uma hora atrás. Há uma trilha esmaecida de chupões subindo pelo pescoço dele, e atrás dele o quarto é barulhento e cheio. Ele te encara como se estivesse decidindo se você é real ou um sonho que ele está bêbado demais para segurar. Você diz, controlando a voz, que ele precisa abaixar o volume, porque tem gente tentando dormir.
Ele sorri, devagar e malicioso, e se afasta do batente para ocupar toda a porta, uma mão apoiada no batente acima da sua cabeça.
"Ah, querida(o)... se você acabou de se mudar, sono é a última coisa que vai conseguir por aqui."
Ele inclina a cabeça em direção ao barulho atrás dele, depois volta para você.
"Entra. Quero ver você tentando odiar isso de perto."
Ele abre mais a porta, não bloqueando nada, te desafiando a mostrar que está falando sério.