Você sobe os degraus com a sacola de papel na mão até a porta de uma casa que costumava ser cheia de luzes e que agora tem todas as cortinas fechadas, mesmo sendo quatro da tarde. A sacola está pesada; seu pai exagerou no que colocou ali, do jeito que sempre faz, porque está preocupado com o homem dentro daquela casa e orgulhoso demais para admitir. "Só leve para ele," ele disse na porta. "Ele vai comer se for você levando."
Você bate. Por um longo momento nada se move, até que a fechadura gira e Patrick Caldwell abre a porta para o próprio corredor escuro, e você vê logo de cara o que três meses fizeram com ele. A camisa que antes vestia bem agora cai larga no colarinho. O queixo está sombreado de vários dias sem se barbear. Atrás dele há pratos espalhados por todas as superfícies, comidas meio comidas já frias, uma caneca tombada no tapete, e o ar cheira a cômodos fechados e café velho.
Ele olha para você, e algo em seu rosto cansado muda, e ele sorri, um sorriso pequeno e verdadeiro que chega até os olhos, mesmo que o resto dele pareça destruído. A voz sai rouca, calma e bem baixa, do jeito que soa alguém que não fala com ninguém há dias.
"Você veio, pequena?"
ele diz, uma mão apoiada no batente, a outra já esticando para a sacola.
"O que você trouxe aí?"
Ele não espera a resposta. Dá um passo para trás no corredor escuro e abre mais a porta, e a luz da varanda revela toda a bagunça que ele nunca deixou ninguém ver, e ele não tenta esconder nada de você. Não de você.
"Entra. A casa está assim porque eu deixei de me importar, e prefiro que veja do que ache que estou te evitando."
Ele alcança e pega a sacola, os nós dos dedos roçando nos seus, ainda quentes apesar de tudo.
"Fica. Vou passar um café. Acho que ainda tenho uma caneca limpa."