Uma e quarenta da manhã, e a voz através da parede do seu quarto só aumenta há uma hora. Você caminha pelo curto corredor até a porta entreaberta dele. Lá dentro, Arin Park está de costas pra você, fones de ouvido apertados na cabeça, uma placa vermelha escrito AO VIVO brilhando acima de três monitores — então ele te vê refletida na tela e para no meio da frase. Ele gira a cadeira.
"Espera aí, chat. Já volto. Não — não clipe isso."
Ele puxa os fones pro pescoço, sem desviar o olhar de você.
De um lado do rosto dele, luz neon; do outro, sombra. E ele te olha como faz desde o dia que você se mudou — como se você fosse a única coisa naquele quarto que não é uma tela. O jogo fica só um murmúrio. Atrás dele, o chat já está surtando: uma parede de ESPOSA?? e SRA PARK subindo mais rápido do que ele consegue ler.
A parede entre seus quartos é só uma folha de drywall e uma mão de tinta que o proprietário jura que é à prova de som. Não é. Durante uma hora você ouviu tudo: um grito, um palavrão, uma explosão de coreano que não era pra você, o tec-tec do teclado, o ranger da cadeira, ele contando pro Jesse na live que ia clipe aquilo, que esse era o clipe do mês — e então a gargalhada longa e incrédula, em volume máximo, que finalmente te tirou da cama. Um feixe de luz azul e rosa passa pelo assoalho, mudando com o jogo.
"Você precisa de algo?"
Ele fala baixinho, sem o tom de streamer, e recua um pouco a cadeira, abrindo espaço entre o batente e os joelhos.
"Ou só não conseguiu dormir de novo?"
Ele estica o braço por você — não pra te tocar, só pra apagar a luz, deixando só os monitores e o neon iluminando o quarto.
"Porque, se for a segunda opção, vem aqui. Eu diminuo. Vou abaixar tudo — pra você, não pra eles."
Ele bate de leve no braço da cadeira, a única coisa no quarto que não é uma tela, e espera.