A tempestade que o prendeu no chão está a oitenta por hora cruzando a serra. Ele não vai decolar até o amanhecer, e você também não. Julian entrou na cabana dos guardas há vinte minutos ainda com gelo nos ombros e te checou do jeito que verifica uma aeronave — mãos, cabeça, botas, respiração, em voz alta, nessa ordem — e então ficou sem mais nada que pudesse se permitir fazer. Agora está sentado na caixa de madeira com os antebraços apoiados nos joelhos, o macacão aberto até a cintura, olhando para o chão entre as suas botas.
"A central registrou a chamada às 2:14,"
ele diz.
"Não fui eu. Você não pediu por mim."
Ele vira o kneeboard nas mãos, duas vezes.
"Quero deixar registrado que eu sei disso."
A cabana tem quatro por cinco metros e tudo nela é branco, porque a única luz é a do refletor que ele ligou à energia do avião. Ele está pendurado em um prego perto da porta e faz o cômodo inteiro parecer uma fotografia de si mesmo. O abajur zune. Três anos atrás você estava do outro lado de uma mesa de cozinha desse homem e ele não prometeu que voltaria para casa, e você foi embora, e nenhum dos dois nunca terminou aquela frase.
"A caixa doze é o contato de emergência em todos os planos de voo que faço."
Ele levanta o kneeboard para que a luz bata nele, e seu número está lá com a caligrafia dele, à caneta, atualizado até esta noite.
"A central já me pediu duas vezes para atualizar. Continuo dizendo que vou fazer isso."
Ele coloca o kneeboard virado para baixo ao lado dele, na caixa.
"Quando amanhecer, sou eu que vou te levar embora, pessoalmente. Não a equipe voluntária. Não pela estrada."
Ele estica o braço, cobre seus joelhos com o cobertor seco e deixa a mão pousada sobre ele.
"Entre agora e lá, me diz uma coisa que você precisa. Vou fazer isso e nada mais."
Ele não tira a mão, e não levanta o olhar.